Não se canta um bom tango em português


Buenos Aires, janeiro de 2010. Caminhava pelas barraquinhas da “feria de artesanos” da Recoleta num domingo à tarde quando escutei um som conhecido. Estava meio longe ainda, mas pelas linhas de guitarra e bateria já sabia o que era. O problema é que tinha algo muito estranho ali... Cheguei mais perto e aí já era possível acompanhar a letra: “mi ametralladora está llena de magia, pero soy sólo un hombre más”...  O que era aquilo? Passaram a música no Google Translator? Metralhadora cheia de magia? Dios mio!

Perguntei para o vendedor qual era a banda que estava tocando a música:
— “La mejor de sudamerica. La Bersuit, ¿conoce? Bersuit Vergarabat, simplesmente la mejor.”
— “Solamente conozco la canción.”
— “Si, por supuesto, las canciones de Caçuça, el brasileño. Esta versión de Bersuit es magnifica, no?”



Região da Feira de Artesanato da Recoleta. Acho que gostei mais dessa árvore do que da própria feira...


E assim fui apresentado a uma das bandas mais influentes na Argentina nos anos 90 e 2000. Ignorância minha, nem sabia da existência do grupo. A música “El tiempo no para”, do álbum “Y Punto”, de 1992, é sucesso até hoje. A América do Sul tem muito intercâmbio cultural, mas o Brasil parece ficar sempre meio à parte. Certamente o problema do idioma. O que vem para cá precisa obrigatoriamente ser traduzido e vice-versa (CQC e RBD que o digam...). É uma pena. Poderíamos trocar muito mais figurinhas com os vizinhos próximos, sem ter que ficar sempre aguardando os negociadores de direitos autorais definirem suas rebuscadas cláusulas contratuais... Mas é a vida, afinal, “assim se ganha mais dinheiro”...


Bom, fui conferir. Devo dizer que gostei do som. Uma boa mistura de pop rock com influência de diversos ritmos latinos. Totalmente impossível comparar alhos com bugalhos, principalmente quando se fala de países diferentes, com histórias musicais também distintas, mas acho que em termos de ingredientes brasileiros seria o seguinte: junte em uma vasilha umas fatias da fase pop dos Titãs, acrescente as fusões de ritmos dos Paralamas do Sucesso e umas pitadas de romantismo e poesia do Barão Vermelho conduzido por Cazuza. Depois, misture e triture com o sangue quente da argentinidade, sem esquecer de temperar a massa com uma pitada suave da obscenidade de Rogerio Skylab. O aroma peculiar da essência de acordeon completa o prato, que pode ser servido acompanhado de muita pancadaria ou apenas de um nostálgico romantismo.

O grupo começou em 1987, sob o nome Henry y la Palangana, e em 1989 firmou-se definitivamente como Bersuit Vergarabat. Em 1998 ganhou dois discos de platina, com Libertinaje, e em 2005 vários prêmios com La Argentinidad al Palo. As coisas não costumam ser muito diferentes mundo afora, e em 2009 o vocalista Gustavo Cordera decidiu seguir carreira solo. Com isso o grupo se separou. Recentemente, em fevereiro de 2011, Bersuit deciciu voltar, mesmo sem seu principal elemento.

Voltando à vaca fria. É bom escutar Bersuit, mas não tem nada mais desanimador do que tradução de poesia. Nada se encaixa bem. Coisas do idioma — nada contra a banda, muito pelo contrário. O problema é que uma hora falta a métrica, outra hora falta a rima, vira e mexe o sentido do texto se perde de vez. Impossível.

Tu cabeza está llena de ratas, te compraste las acciones de esta farsa”, “ellos sumergieron un país entero” e, claro, a metralhadora cheia de magia...

No, gracias.

De qualquer forma, a gente tem que admitir que de vez em quando aparecem soluções excelentes, como no verso “Disparo contra el sol con la fuerza del ocaso” — nessa o camarada mandou muito bem. Confesso que acho que ficou melhor que o original...

Enfim, enquanto a globalização avança violentamente em todas as direções, é bom apreciar as pequenas diferenças que fazem de cada cultura uma experiência única.

O site da banda: http://bersuit.com/

Disparo contra el sol con la fuerza del ocaso
Mi ametralladora está llena de magias
Pero soy solo un hombre más.
Cansado de correr en la dirección contraria,
sin podio de llegada
y mi amor me corta la cara,
porque soy sólo un hombre más.
Pero si pensás que estoy derrotado,
quiero que sepas que me la sigo jugando
porque el tiempo, el tiempo no para.

Unos días sí, otros no,
estoy sobreviviendo sin un rasguñón,
por la caridad de quien me detesta.

Y tu cabeza está llena de ratas.
Te compraste las acciones de esta farsa
y el tiempo no para.
Yo veo al futuro repetir el pasado,
veo un museo de grandes novedades
y el tiempo no para, no para, no.

Yo no tengo fechas poara recordar
mis dias se gastan de par en par
buscando un sentido a todo esto
Las noches de frío es mejor no nacer,
las de calor se escoje matar o morir
y así nos hacemos Argentinos!!
Nos tildan de ladrones, maricas, faloperos,
y ellos sumergieron a un país entero,
pues así se roban mas dinero.

Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára. Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro



Rogerio Maciel,
Abril, 2011.

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